terça-feira, 15 de outubro de 2013

A RELEVÂNCIA DO VISUAL


Alguns espetáculos do tradicional projeto Porto Alegre em Cena, como Medeia Vozes e Não sobre o amor, pela qualidade e o impacto visual de suas imagens, fizeram-me retomar uma observação antiga que gostaria de comentar aqui. Em Não sobre o amor, a cenografia criada por Daniela Thomas coloca na vertical o palco onde os atores atuam, reportando à ideia de um quadro, ou mesmo a obras como Bed, de Robert Rauschenberg. O trabalho visual do grupo Ói Nóis Aqui Traveiz, que vem assinado coletivamente, organiza os espaços como uma grande “instalação” por onde o espetáculo e o público transitam. Em ambos os casos, como em muitos outros exemplos, os fatores visuais têm preponderância e costuram todo o projeto, dando significações ao espetáculo e indo além de um mero complemento teatral no sentido tradicional da cenografia.


Daniela Thomas Tem chamado minha atenção, já faz bastante tempo, o protagonismo que os elementos visuais vêm adquirindo nos espetáculos artísticos de diferentes áreas, sejam teatro, óperas, shows musicais e mesmo cinema. Eles ganham tanta relevância que, em muitos casos, sobrepõem-se a outros, como o próprio texto ou o repertório musical, tornando-se o maior atrativo dos eventos. Esse é um fenômeno que vem se desenvolvendo, preponderantemente, a partir dos anos 1990, podendo ser observada, por exemplo, a carreira de Peter Greenaway no teatro e no cinema, com o destaque que passou a dar às questões da imagem em suas criações a partir dessa década. Já em 2001, Bonito Oliva convidou-o para participar, com uma instalação, na 1ª Bienal de Valência. Ele consolidou seu trabalho de artes visuais paralelamente ao de cineasta.


Algumas questões podem ser apontadas como concorrendo para o que se observa. Primeiramente, é interessante destacar a atuação de muitos artistas plásticos em cenografias, adereços e direção de arte. Ernesto Neto assinando o cenário do belo espetáculo de Marisa Monte, a já citada Daniela Thomas, Felix Bressan e Elcio Rossini são alguns dos artistas que, trabalhando a partir das artes visuais, desenvolveram excelentes trabalhos de cenografia. Oriundos das artes plásticas, também os diretores de arte no cinema têm um importante papel, são responsáveis pela configuração dos elementos visuais em todas as cenas e no conjunto do projeto fílmico. Pode-se pensar que as novas configurações do circuito de artes visuais, em que o artista deixa de ser basicamente um produtor de objetos de consumo de elite, têm levado artistas a buscarem outras formas de atuação, deslocando-se para esses espaços de trânsito. Esse deslocamento de profissionais com formação especializada garante impressionantes resultados plásticos nos trabalhos que desenvolvem. A cenografia, direção de arte e outras tarefas ligadas à construção de visualidades ganham fôlego e destaque, assumindo protagonismos até há algum tempo impensados, uma vez que essa era uma tarefa secundária nos projetos desses eventos. A participação de artistas plásticos na criação visual de espetáculos e grandes eventos não é algo novo. Na Renascença, muitos dos grandes pintores que conhecemos fizeram decorações de festas e festivais da nobreza, como foi o caso de Botticelli, na Itália dos Médicis, ou Fragonard, na França, dos reis Luises. E, mesmo na modernidade, artistas como Picasso e Salvador Dalí realizaram projetos cenográficos para teatro e óperas e dividiram proposições de imagens com cineastas como Luis Buñel. Essas atuações dos artistas vieram enriquecer visualmente os espetáculos, ao mesmo tempo em que afirmaram a complexidade das relações entre as diferentes áreas artísticas, não tão afastadas, como muitas vezes as pensamos. No entanto, mesmo tendo sido essas participações importantes, elas eram tão usuais, nem se tornavam o ponto central dos acontecimentos como são em alguns casos contemporâneos.


 Contraditoriamente, no campo das artes visuais contemporâneas, alguns artistas abrem mão do quesito visualidade, para explorar outros elementos em seus trabalhos. Esse é o caso, por exemplo, das proposições que envolvem relações colaborativas com comunidades ou empresas, nas quais os processos são mais importantes do que um produto visual final. Ou mesmo no caso de propostas em que a ênfase conceitual do trabalho coloca a questão plástica como secundária em suas configurações. O abandono da imagem foi explorado como na 23ª Bienal Internacional de São Paulo, em 1996 – “desmaterialização da obra de arte no final do milênio” – com curadoria de Nelson Aguilar. O tema tem sido explorado em diversas exposições e livros. Percebe-se, por exemplo, a presença de trabalhos preponderantemente sonoros apresentados em eventos de artes visuais como Arte Sonora. Em alguns casos, a obra remete a paisagens, que o espectador deve criar visualmente a partir dos sons ouvidos; as imagens são, nesse caso, mentais e não visuais. Outro tipo de negação do visual pode ser observado quando são propostas obras em que o texto, com a descrição de determinado lugar, fato ou circunstância, é emoldurado e substitui a imagem. O espectador é conduzido, nesse caso, também a imaginar visualmente a cena, estabelecendo-se de certa forma uma forte ligação com a literatura.


As interconexões entre as diferentes áreas artísticas, considerada como uma característica da arte contemporânea, concorre para esses deslocamentos da imagem – ênfase ou ocultamento – que se observa. A tradicional segmentação das áreas artísticas em suas especificidades tem dado lugar a outras experiências, envolvendo diferentes tipos de competência. Esse pode ser considerado um movimento de mudança paradigmática, com o abandono das estruturas segmentadas do pensamento iluminista para se abrir ao pensamento das complexidades, na linha do que propõe Edgar Morin. Seguindo nessa linha de cruzar conhecimentos, as artes têm avançado em diferentes áreas, abrindo mão em muitos casos suas especificidades. Nesse sentido, a proposta desenvolvida na Documenta de Kassel, em 2012, se incorporou inúmeros discursos e campos de conhecimento, diluindo o artístico neste corpus hibrído, tendência que norteia, também, na edição de 2013 da Bienal do Mercosul. Nesse panorama, é interessante observar a preponderância do visual em diferentes áreas, o abandono da imagem pelas artes visuais e o trânsito entre as áreas artísticas e, também, entre outros campos de conhecimento. O objetivo do levantamento básico desse tema não é defender uma tese ou oferecer conclusões, nem tão pouco propor formas avaliativas, com posições afirmativas ou negativas. A ideia é a observar os fenômenos e suas circunstâncias, mergulhando de forma crítica na realidade cultural contemporânea.

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